High Tech x Low Tech: tecnologia, artesanato e design
25 | 08 | 2017
Já parou para pensar em tudo que você faz com a tecnologia? Paga conta, fecha negócio, conversa com um amigo que mora longe, intermedia o seu transporte, assiste uma série ou um filme… Não temos mais como fugir. E como fica o que surgiu lá no passado, antes dela, como o artesanato? Será que a tecnologia também influencia na maneira que ele é criado, produzido e vendido? Com o tema  "High Tech x Low Tech: tecnologia, artesanato e design", o Yellow Day 3, liderado pelo diretor da Abracadabra Allyson dos Reis, reuniu grandes nomes do Ceará e a gente faz agora um resumo do que aconteceu. O Live completo pode ser assistido na nossa fanpage.

Empobrecimento ou enriquecimento?

Para Chateaubriand Arrais, quanto mais ferramentas, mais opções de transformar o artesanato e aumentar a sua qualidade. “Mais vai depender muito do designer, da pessoa. Infelizmente, o que a gente vê é a acomodação das pessoas por causa da tecnologia. Antes, com acesso restrito às informações, as pessoas se esforçavam mais”, diz. 

Para Angélica Freitas, isso varia de acordo com a geração. Quem pegou o “processo de transição”, como ela, pensa que a mão é mais rápida, enquanto seu filho de 12 anos tem mais facilidade de criar no mundo digital. E, por conta do fácil acesso às informações, os esforços são menores. “Sentia nos meus alunos uma dificuldade de ler mais. Para eles, o que tá no Google é verdade. Lamento pelo fato deles não utilizarem todas as possibilidades [de fontes de conhecimento]”,completa.

Já Pietro Occiuzzi acha que o digital e o manual estão conectados: “A mão pode ser um lápis, um teclado, um mouse. Com a internet, a informação ficou disponível, mas como designer, você precisa sempre investigar. Sair da cadeira, visitar o cliente, ir atrás da informação. O problema dessa geração é a preguiça de correr atrás de uma solução.” A acomodação citada por Occiuzzi , para Érico Gondim, faz com que as pessoas não visualizem outros processos, influenciando nos resultados. Já Lindebergue Fernandes completa: “A tecnologia faz a gente perder a questão da alma, do afeto. Um tecido feito em larga escala é diferente do feito no tear, na trama. Tem a questão da valorização, da sensibilidade”.

Será o fim do artesanato?

Outra questão levantada durante o Yellow Day 3 foi a falta de interesse pelo artesanato por parte dos mais jovens. O que será que tem causado esse desinteresse? 

Para Angélica, não falta interesse do público consumidor, principalmente do pertencente à classe média/alta. O produto que tem “alma”, “afeto” tem sim seu valor. Porém, ela explica que o que tem acontecido é o envelhecimento de quem tem o conhecimento de certas técnicas. “A gente tem obrigação de preservar algumas técnicas, como o labirinto. O desinteresse acontece porque as mães e avós não conseguem vender o produto do seu trabalho, consequentemente, filhas e netas não acham interessante”. E como preservar? Mantendo a cultura, a história, a memória. “A gente precisa fazer alguma coisa pra que isso não morra, até porque faz parte da história, e é um traço que a gente tem que é muito forte”, afirma.

Para Allyson, o manual é também uma resposta ao excesso de tecnologia, uma resposta às coisas frias, “sem alma”. “Talvez o uso da tecnologia a favor delas pode ser uma resposta para o jeito de vender o artesanato”, sugere Angélica. Para ela, a tecnologia pode sim estar presente, mas para ajudar no comercial, como uma empresa de mídia digital “Quanto mais local for a história do artesanato, mais interessante comercialmente ele é, por ser único!”, conta. 

Tecnologia como ponte

Para Chateaubriand, a tecnologia pode ser usada de duas formas no artesanato: na produção e na divulgação. “A produção deve continuar sendo local, mas pode ser global em termos de ultrapassar barreiras de venda. Antigamente um artesão tinha dificuldade de mostrar o que produz. Hoje, com um smartphone e o Instagram, ele divulga. Quanto mais profissional, maior amplitude de vendas e resultados”. Falando sobre a sobrevivência do artesanato à Revolução Industrial, ele diz: “Hoje essa Revolução Tecnológica tem que ser vista como uma impulsionadora do artesanato.”

Pietro complementa a ideia de Chateaubriand afirmando que a tecnologia é a ponte entre o artesão e quem aprecia seu artesanato. “Outro ponto é que a forma de consumir mudou. Já que mudou, porque não mudar também a forma de vender?”, completa, citando os marketplaces como o segredo para um alcance maior de compradores. Segundo Nelson Quesado, outras tecnologias também podem ser usadas como aliadas, como a realidade aumentada. “A experiência pode ajudar a potencializar a venda”, sugere. 

E quem resgata o artesanato com uma “repaginada”?

Outro questionamento levantado por Allyson foi o resgate do artesanato de uma jeito mais contemporâneo, com novas interpretações. Para Angélica, essa “mistura” é positiva e que é ela que tem tornado cada vez mais popular o artesanato. Como exemplo, ela cita a parceria de Espedito Seleiro com os irmãos Campana. Em contrapartida, Érico diz que é preciso estar atento aos propósitos e que não é legal a interferência em alguns processos, que viram imposições. 

Na academia, Roberto Vieira percebe que o cenário não é tão ruim e que o interesse dos alunos por processos manuais ainda existe. E Lindebergue aplica na prática em seu trabalho comercial. Para ele, o meio termo entre o comercial e o artesanal aparecem em projetos de "coleções-cápsula", onde o “feito à mão” aparece ainda em pequena escala. 

E a individualidade criativa, fica como?

O excesso de tecnologias que "facilitam" o trabalho podem interferir na individualidade criativa, deixando tudo homogêneo? Como evitar que isso aconteça?

De acordo com Angélica, a resposta está em uma palavra: repertório. “Se todo mundo busca nas mesmas referências, a homogeneidade é mais óbvia. Quando você busca um repertório, consegue se diferenciar com as informações adquiridas e criar algo novo”. Chateaubriand completa com a ideia da pesquisa com obstáculos, já que a facilidade de obter informações hoje é proporcional à quantidade de conteúdo superficial, mentiroso e copiado disponível. “Tem que ter muito cuidado na hora de se informar”, alerta. Por conta dos algoritmos do mundo virtual, ele diz que é criada uma bolha de informações, onde você só recebe conteúdo sobre determinados assuntos de interesse pessoal. “Saia do mundinho que o Facebook e o Instagram entregam”, sugere. E sair dessa bolha é também a sugestão de Pietro Occiuzzi, principalmente para o designer, que exerce a função de pensar em produtos e soluções que ainda não existem. O bom designer é observador e proporciona experiências que permeiam em todas as áreas”. Érico completa: "observar", "questionar" e "interagir" são atitudes fundamentais.

O encerramento do Yellow Day 3 fica com uma reflexão do diretor da Abracadabra: “Use a tecnologia como ferramenta, como parte do processo. Conviva com o "High-tech" e o "Low-tech" e encontre o seu caminho pessoal. Não caia na tentação de só olhar para a frente, mas olhe também para o passado, aprenda com ele. Entenda como a tecnologia vai influenciar nossas vidas, mas sem esquecer as nossas tradições”.